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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Resolução Política do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores - Fevereiro de 2011



Resolução do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores

Brasília, 10 de fevereiro de 2011.
 
O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, reunido em 10 de fevereiro de 2011, celebra não só o 31º aniversário do PT como o início auspicioso do Governo da companheira Dilma Rousseff.
 
O terceiro governo democrático e popular será o da continuidade e do aprofundamento da grande transformação iniciada há oito anos no país pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um novo período de nossa história foi aberto, cheio de conquistas, promessas e desafios.

Nossa vitória nas eleições de 2010 representa um marco fundamental na trajetória dos 31 anos do Partido dos Trabalhadores. O Governo Lula construiu, no imaginário nacional e na vida real do povo brasileiro, um símbolo político de inegável valor: que é possível gerar um modelo de inclusão social como instrumento de desenvolvimento e soberania com nova inserção mundial. O Governo Lula mudou as expectativas do povo em relação à viabilidade de um projeto nacional de desenvolvimento social e econômico. Além de tirar o país da rota da miséria, do subdesenvolvimento e da subserviência, Lula se tornou um líder mundial inconteste. Líderes dos mais diferentes países e ideologias, além de respeitadas publicações internacionais, colocam Lula no topo das personalidades políticas mais importantes do mundo. Isto a direita brasileira também não aceita. Desvalorizar as profundas mudanças ocorridas no país nestes últimos anos e desconstruir a liderança política de Lula são essenciais para o plano da direita brasileira de voltar ao poder e interditar nosso projeto estratégico.

O Governo Dilma é a expressão do nosso projeto de construção de um país justo, democrático e soberano. Este projeto está inconcluso e Dilma, pela sua história, coragem e competência e pela força política da sua eleição é a condutora da sua segunda fase. Não há dúvida de que nossa vitória em 2010 foi estratégica para a consolidação do nosso objetivo de tornar o Brasil uma alternativa concreta e bem-sucedida frente aos profundos impasses gerados pelo neoliberalismo. Uma alternativa antagônica à do privilégio e da miséria difundida e imposta em vários países como a única solução para os conflitos gerados por um mundo cada vez mais desigual. Viabilizamos, no Brasil, uma alternativa antagônica a esta. Ela se baseia nos valores da igualdade social, da inclusão, da democracia e da pluralidade. Sua defesa é a questão central e estratégica do nosso partido e define o conjunto das nossas ações.

No plano internacional, persistem muitos dos fatores que desencadearam há dois anos a mais grave crise vivida pela economia mundial nas últimas décadas. Ainda que seja difícil prever as transformações em curso na cena mundial, é evidente que um mundo distinto está surgindo.

O declínio relativo das grandes potências vem sendo acompanhando pela emergência de nações, como o Brasil, que até bem pouco tempo haviam ocupado um lugar subalterno no mundo. O dinamismo das economias emergentes, a força de suas sociedades e o vigor democrático de muitas delas contrasta com a estagnação econômica de vários países desenvolvidos, que provoca perversos fenômenos sociais e políticos.

Todos esses elementos permitem pensar que um novo mundo está surgindo – multilateral e multipolar.

Em muitas regiões – como se evidencia hoje em vários países árabes – amplos setores da sociedade demonstram não estar mais dispostos a continuar vivendo como antes: sem esperança, na pobreza, na opressão política, sofrendo humilhações internacionais.

O Diretório Nacional do PT expressa sua solidariedade com a luta dos povos árabes contra os governos corruptos e antidemocráticos do Oriente Médio – como no caso do Egito –, aliados das potências que, por mais de um século, infelicitam aquela região.

As tarefas centrais do período que se abre com as eleições de outubro passado são as de consolidar e aprofundar o crescimento econômico do país, com expansão do emprego e forte distribuição de renda, equilíbrio macroeconômico e redução da vulnerabilidade externa e preservação ambiental.
No centro dessas reivindicações está a meta de eliminar pobreza absoluta, objetivo maior para lograr uma efetiva democracia econômica e social. O fortalecimento desta, da qual depende em grande parte a democracia política, passa igualmente pelo aprofundamento de políticas públicas como as da educação, saúde e segurança pública, bem como pela instituição de um novo  marco regulatório para as comunicações no Brasil. O país necessita dar continuidade ao fortalecimento de sua infra-strutura física e energética e à implementação de uma política industrial baseada em grande medida na inovação tecnológica. Todos esses fatores, junto com uma acertada política comercial, serão fundamentais para aumentar nossa competitividade externa. A redução do custo do crédito e a reforma do sistema tributário são elementos fundamentais para isso.

O fortalecimento desse novo desenvolvimentismo, que o Brasil vem implementando nos últimos anos, é condição essencial para assegurar nossa presença soberana no mundo, mediante o prosseguimento de uma política externa altiva e ativa que assegure lugar privilegiado para o Brasil e para
a América do Sul no mundo multipolar em formação.

Cabe ao PT ser a principal base de apoio do Governo Dilma, mas também corresponde-lhe a tarefa de servir de elo particular de ligação com a sociedade, especialmente com as demandas dos trabalhadores e dos mais desprotegidos.

Cabe, também, ao PT empenhar-se no aprimoramento de nosso sistema democrático, mediante a realização de uma reforma política.

A reforma política é condição necessária para o fortalecimento de nossa democracia e de seu sistema representativo. Ela é indispensável para a consolidação de um sistema partidário baseado em valores programáticos e não em interesses subalternos. Ela contribuirá decisivamente para a transparência de nossas instituições e para a lisura dos processos
eleitorais.

A unidade da base de sustentação do Governo supõe que todos os partidos tenham acesso às responsabilidades da administração. Mas esta participação se fará sempre em base a grandes orientações programáticas e a critérios de capacidade política e técnica e da probidade dos indicados.

O Partido dos Trabalhadores e todos os setores democráticos estão também confrontados com o desafio de levar adiante um movimento pela renovação do pensamento e das práticas políticas no país.

A CEN também deve convocar uma reunião do Diretório Nacional para discutir e deliberar sobre as questões relacionadas à Reforma Política. Além de ir muito além de uma mera reforma eleitoral, para nós a Reforma Política deve ter um conteúdo democrático e republicano e o seu objetivo deve ser a radicalização da democracia política e eleitoral como um caminho alternativo ao da criminalização e judicialização da política. Devemos abrir este debate em todas as instâncias do PT, organizar um diálogo com os outros partidos, disputar os movimentos sociais e esclarecer o conjunto da sociedade sobre as posições envolvidas e a importância desta luta. Os encaminhamentos e alianças em torno desta questão são de iniciativa do partido e o palco da sua viabilização é a sociedade e o Parlamento. Devemos afirmar a soberania popular na reforma política e a sua expressão máxima: o voto e a participação popular.

A viabilização do nosso objetivo central de defender nosso projeto e nosso governo e enfrentar a disputa em torno da Reforma Política são tarefas de todas as instâncias e organismos do PT. A Fundação Perseu Abramo, pela estrutura e instrumentos que possui e pela sua capacitação técnica, deve organizar, sintetizar e divulgar nossa elaboração. O conteúdo de seus cursos de formação política, das suas publicações e seminários deve estar submetido ao objetivo maior de debate e defesa do nosso projeto e do programa do PT, dos quais o legado de Lula e o programa do Governo Dilma são partes fundamentais. Da mesma maneira, os temas relacionados à Reforma Política devem merecer uma atenção especial na elaboração de seu cronograma de trabalho. É tarefa da FPA a promoção de debates e a publicação de revistas específicas sobre as questões que envolvem esta bandeira.

O PT deve buscar o aprofundamento e a requalificação da sua relação com os movimentos sociais. A defesa do nosso projeto estratégico de mudar o Brasil e da autonomia dos movimentos sociais são os pilares deste relacionamento.

O Partido dos Trabalhadores, igual que toda a sociedade brasileira, abriga em suas filas homens e mulheres das mais variadas filiações ideológicas e/ou religiosas, sem que elas se sobreponham aos valores maiores que nos reuniram – a luta por um socialismo democrático, respeitoso dos Direitos Humanos e em favor de um Estado laico.

O florescimento de idéias, o debate público e respeitoso das mais variadas alternativas para nosso país são condições indispensáveis para que continuemos no caminho da construção de um Brasil forte e democrático.

Para esse debate, convocamos especialmente à juventude do país, a quem cabe hoje – e não apenas amanhã - dar contribuição decisiva para a construção do Brasil que queremos.

No limiar de sua quarta década de existência, o Partido dos Trabalhadores olha com orgulho para seu passado. De toda sua trajetória, especialmente de seus momentos de sua criação, quer recolher aqueles sentimentos de combatividade, esperança e  generosidade que estiveram presentes em sua fundação e primeiros passos. Em pouco mais de 30 anos nos transformamos em uma alternativa política para um dos maiores países do  mundo. Mais do que isso: em um momento de crise de grande parte das esquerdas no mundo – especialmente nos países desenvolvidos – o PT, com erros e acertos, mostra caminhos a serem explorados.

Viva o povo brasileiro.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ciclo de Conferência Michael Löwy na PUC-SP



Depois do Seminário Internacional de Educação em Direitos Humanos outra boa pedida é o Ciclo de Conferências Michael Löwy, realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-SP.



Michael Löwy (São Paulo, 6 de maio de 1938) é um pensador marxista brasileiro radicado na França, onde trabalha como diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique. É um relevante estudioso do marxismo, com pesquisas sobre as obras de Karl Marx, Leon Trótski, Rosa Luxemburgo, Georg Lukács, Lucien Goldmann e Walter Benjamin.

Biografia

Filho de imigrantes judeus de Viena (Áustria), Michael Löwy nasceu em São Paulo, cidade em que passou sua infância e adolescência. Em 1960, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, tendo sido colega de Roberto Schwarz e Gabriel Bolaffi. No ano seguinte, partiu para a França, onde estudou sob a orientação de Lucien Goldmann, concluindo o Doutorado em 1964, com uma tese sobre a Revolução comunista na obra do jovem Marx.

Após alguns anos vivendo em Israel, Löwy retornou à França em 1969, passando a trabalhar na Université de Paris VIII como assistente de Nicos Poulantzas. Em 1976, obteve o doctorat d’État com uma tese sobre a evolução política do jovem Lukács.

Em 1978, tornou-se professor de Sociologia no Centre National de la Recherche Scientifique (Paris) e depois diretor de pesquisas da mesma instituição.

Nos anos 1950-1960, fez parte da Liga Socialista Independente, organização que contava com Hermínio Sacchetta entre seus dirigentes. Em 1968, associou-se à Quarta Internacional, tornando-se membro da Primeira seção, a Ligue Communiste. Em sua militância revolucionária, Löwy esteve constantemente atento às lutas sociais e organizações políticas de esquerda, das Ligas Camponesas ao MST, sem mencionar o PT e o PSOL.

Foi casado com Ilana Zelmanowicz, com quem teve dois filhos. Em 1980, o casal se separou e Löwy casou-se com Eleni Varikas, historiadora de origem grega.

* - Com informações do Wikipedia

Descoberta origem dos e-mails e boatos infames contra a Candidata do PT, Dilma Rousseff

Por Rodrigo Viana

Não é difícil rastrear os caminhos da boataria que atingiu Dilma Rousseff, poucas semanas antes do primeiro turno. A campanha do PT parece não ter levado a sério a ameaça. E a  boataria e as calúnias prosseguem.

O jornalista Tony Chastinet – colega com quem tive o prazer de dividir o prêmio Vladimir Herzog em 2007, e com quem produzi a série de reportagens sobre as centrais clandestinas de tortura durante a ditadura – fez um levantamento minucioso sobre a origem de um desses e-mails caluniosos. Não precisou de dinheiro, nem de ferramentas especiais. Usou basicamente o “Google”. Gastou alguns minutos e usou a experiência de quem já investigou dezenas e dezenas de picaretas em suas reportagens investigativas.

Tony Chastinet descobriu que o email partiu de gente ligada à extrema-direita. Gente com nome, sobrenome e endereço. Confiram…

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O CAMINHO DA CALÚNIA
por Tony Chastinet

Recebi ontem à noite um daqueles e-mails nojentos e anônimos, que estão circulando na internet, com calúnias contra a candidata Dilma Roussef. Decidi gastar alguns minutos para tentar identificar os autores. Consegui, e repasso abaixo as informações sobre os autores da baixaria – incluindo as fontes da pesquisa. 

Há um e-mail circulando na internet com o seguinte título: “Candidatos de esquerda”. Na mensagem há uma série de calúnias contra Dilma, e o pedido para se votar no Serra. Também recomenda a leitura do site www.tribunanacional.com.br.

Entrei na página e de cara me deparei com aquela foto montada da Dilma ao lado de um fuzil. Uma verdadeira central de calúnias ligada à extrema direita. Vejam uma amostra neste link http://www.tribunanacional.com.br/v2/editorial/a-terrorista/.

O e-mail foi enviado para minha caixa postal na noite de domingo. O remetente é um tal de Ingo Schimidt (ingo@tribunanacional.com.br). O site está registrado na Fapesp em nome do “Círculo Memorial Octaviano Pinto Soares”.

Essa associação tem CNPJ (026.990.366/0001-49), está localizada na SCRN, 706-707, Bloco B, Sala 125, na Asa Norte, em Brasília. O responsável pelo site chama-se Nei Mohn. Em uma pesquisa superficial na internet, descobre-se que ele foi presidente da “Juventude Nazista” em 1968. Era informante do Cenimar e suspeito de atos de terrorismo na década de 80 (bombas em bancas de jornais e outros atentados feitos pela tigrada da comunidade de informações). Também foi investigado por falsificar o jornal da Igreja Católica, atacando religiosos que denunciavam torturas, assassinatos e desaparecimentos (vejam abaixo nas fontes).

Nunca foi investigado e sequer punido pelas barbaridades que aprontou. Para isso, contou com a proteção dos militares e da comunidade de informações para abafar os escândalos e investigações.

Prossegui na pesquisa e descobri que o filho de Nei, o advogado Bruno Degrazia Möhn trabalha para um grande escritório de advocacia de Brasília contratado por Daniel Dantas para representar o deputado federal Alberto Fraga (DEM) em ação no TCU movida pelo deputado para tentar impedir a compra de ações da BRT/OI pelos fundos de pensão.

Interessante essa ligação entre a extrema direita, nazistas e Daniel Dantas. Mas tem mais.
No registro do site ainda há outros dois nomes apontados como responsáveis pela página: Antonio Afonso Xavier de Serpa Pinto e Zoltan Nassif Korontai.

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Fontes:
– Tribuna Nacional – Dados do Registro.br
entidade: Círculo Memorial Octaviano Pinto Soares
documento: 026.990.366/0001-49
responsável: Nei Möhn
2 – Nei Mohn
3 – Filho de Nei
Bruno Degrazia Möhn (OAB/DF 18.161)
Trabalha no escritório Menezes e Vieira Advogados Associados – http://www.migalhas.com.br/mostra_noticia_articuladas.aspx?cod=11457 – artigo defesa ppp
Escritório contratado por Dantas no caso BRT – http://www.anapar.com.br/noticias.php?id=6602 

  
Originalmente Publicado no Blog do Jornalista Rodrigo Viana: 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dilma e o 2º turno: entre o fundamentalismo religioso e a rebeldia utópica

Louise Caroline
Dilma e o 2º turno: entre o fundamentalismo religioso e a rebeldia utópica
*por Louise Caroline

            A expressiva votação obtida por Marina Silva impressiona pelos números, mas, principalmente, pelo conteúdo. Marina conseguiu agregar à sua candidatura dois espectros ideológicos absolutamente extremos: o fundamentalismo religioso e a rebeldia utópica. Em Marina votaram os evangélicos e religiosos mais radicais, assustados pelo suposto ateísmo de Dilma e por sua posição dúbia acerca da discriminalização do aborto, do casamento gay e do uso de drogas. Nesse sentido, desenvolveu-se uma ofensiva de igrejas e religiosos, amplificada por boatos cibernéticos plantados para difundir o medo e o preconceito contra a candidata petista.
            De outro lado – bem do outro lado mesmo – também votaram em Marina muitos cidadãos adeptos de uma rebeldia utópica. Sobretudo jovens e pessoas consideradas “alternativas” na sociedade. Artistas, intelectuais, universitários, o chamado público cult, essencialmente localizado na classe média e portador de um comportamento social radicalmente progressista. Essas pessoas viram em Marina um discurso diferente, uma fala a favor de uma nova cultura política, dos sonhos e das utopias de um mundo melhor.
            Não dedicarei esforços na dissecação desse um discurso que, em minha opinião, é bonito, mas não é factível nessa candidatura de Marina, nem na conjuntura atual da política brasileira. Inclusive, identifico nela mais contradições do que a própria composição de seu eleitorado. Mas ela não está no segundo turno e, portanto, não cabe mais desenvolver argumentos contra sua candidatura.
O fato que trago à baila é que em Marina votaram gays e anti-gays (ou, pra ser politicamente correta, os defensores da diversidade sexual e os homófobos); votaram nela evangélicos e artistas ateus; votaram nela direitistas insatisfeitos com a brandura de Serra e esquerdistas desconfiados das alianças de Dilma. Ao ficar em cima do muro, Marina, surpreendentemente, em vez de se indispor com os dois limiares do espectro ideológico, foi escolhida por consideráveis setores dos dois.
            O PT terá que fazer uma escolha. Entre o fundamentalismo religioso e a rebeldia utópica. Não só para ganhar as eleições, mas, principalmente, para politizar o processo eleitoral, construir as bases para uma profunda transformação da política brasileira, empolgar novas gerações na luta por um mundo diferente.
            Infelizmente, sob o bombardeio midiático e caluniador dos últimos dias do primeiro turno, a reação do PT e de Dilma foi a favor do primeiro viés e não do segundo. Em vez de reafirmar suas posições progressistas – mesmo que polêmicas – Dilma preferiu escondê-las para não causar tumulto e assegurar a vitória no primeiro turno. Perdeu, assim, apoios importantes dentre os setores da rebeldia utópica. Sua busca por reafirmar Deus em cada discurso e o cúmulo de dar destaque ao batizado católico de seu neto, às vésperas da eleição, soaram quase tão artificiais quanto José Serra sorrindo, cantando e lendo a Bíblia em seu programa eleitoral.
            O PT tem a obrigação histórica de retirar da campanha a questão religiosa como um fator importante na escolha eleitoral. E se Dilma fosse praticante de religiões afro-brasileiras, não poderia ser presidenta do Brasil? Se fosse atéia, teria que esconder sua identidade?  A laicidade do Estado precisa ser defendida não na letra morta da Constituição, mas, sobretudo, em momentos de tensão e debate político. A única postura religiosa que se deve e pode esperar de um político é seu respeito à liberdade de credo para todos. Mais que isso é uma regressão inaceitável num país tão diverso quanto o nosso. Errou a campanha de Dilma ao se submeter ao tom religioso imposto pela mídia, por Serra e por Marina. Errou e assim perdeu importantes votos a favor da verde, mas perdeu, principalmente, a oportunidade de travar um bom debate político acerca do verdadeiro respeito à liberdade religiosa.
            Também outras questões polêmicas foram disfarçadas para não gerar desgaste. Ressalte-se, contudo, que essa não é uma peculiaridade de Dilma ou das eleições brasileiras. A Ciência Política identifica o fenômeno da aproximação ideológica e da fuga de questões polêmicas como uma conseqüência natural da bipolarização eleitoral. Embora o Brasil tenha um desenho multipartidário, de fato, somente o PT e o PSDB se apresentam como partidos nacionais em disputa pelo comando maior do país. Assim, os dois tendem a se firmar no centro, para não afastar, a priori, determinados setores da sociedade.
            Acredito que essa aproximação, além de não ser real e, portanto, tratar-se apenas de um discurso fingido no processo eleitoral, não contribui para o desenvolvimento da nossa democracia tampouco para o engajamento de mais pessoas na política e nas decisões coletivas do país, bandeiras fundantes do PT.
            A política existe justamente para disputarmos opiniões e a hegemonia de idéias na sociedade. O processo eleitoral deve exercer esse papel, mesmo que nos custe alguns votos. No caso, a neutralização do discurso da candidata Dilma – que, na essência, representa os pensamentos de esquerda e mais progressistas, além de não contribuir para o debate a fez perder votos e não arrematar as eleições no primeiro turno.
            Agora, diante da nova fase eleitoral, caberá ao PT e à nossa candidata em busca dos eleitores de Marina decidir se priorizará os religiosos, os utópicos ou tentará abocanhar os dois e correr o risco de ficar sem nenhum deles.
            Minha contribuição é no sentido de incentivar a escolha da rebeldia utópica como prioridade para a nova fase da eleição e, quem sabe, do próprio mandato presidencial. Por mais que o Brasil tenha melhorado tanto quanto sabemos depois dos oito anos de Lula; por mais que Serra represente o retrocesso e a elite político-econômica do país; por mais que sejam tantas as conquistas concretas para a população brasileira; há que se falar dos sonhos.
            Não foi pra chegar até aqui que lutamos contra a ditadura, construímos o PT e governamos o Brasil. Foi pra chegar muito mais longe que isso. Foi pra chegar num lugar onde a miséria não existe e onde as pessoas são respeitadas pelo que são e não pelo que têm. Existimos para fazer da política uma coisa coletiva e não esse jogo de interesses privados que ainda dita as regras do jogo político nacional. Ousamos lutar e vencer para que todas as pessoas pudessem ter o direito de amar livremente, de falar e ser ouvidas igualmente, um lugar sem monopólio do conhecimento nem dos direitos. Portanto, o discurso de que “está tudo muito bem" não é o nosso discurso e não convence os que acreditam nos sonhos, nas utopias e vivem em busca de uma sociedade de igualdades e felicidade para todos e todas.
            Tenho certeza de que a candidatura de Dilma representa tudo isso. De que o PT carrega em sua essência e em seu um milhão de filiados as idéias socialistas mais bonitas e democráticas que já existiram no mundo. Mas não dissemos isso. Escolhemos para nossa campanha o tom pastel da neutralidade e não o vermelho das nossas idéias.
            Assim, passamos superficialmente por questões tão vitoriosas de nosso governo como as relações internacionais, sem defesas ideologicamente explicadas sobre por que priorizar relações com Irã, África e América Latina. Acabamos sendo mal compreendidos e perdendo votos de mundialistas empolgados com essa nossa coragem internacional.
            Até mesmo a franca exposição do monopólio das comunicações e da partidarização da mídia se restringiu a discursos inflamados de Lula e Dilma que rapidamente foram contidos por pronunciamentos brandos em defesa da “liberdade de imprensa”.  Acabamos perdendo a oportunidade de debater claramente uma proposta para a democratização dos meios de comunicação, bem como os votos de militantes dessa causa (estes sim travaram uma disputa aberta com a grande mídia a partir dos blogs e redes sociais).
            Ainda, acrescente-se o debate rasteiro, preconceituoso e distorcido que assistimos acerca da discriminalização do aborto e do uso de drogas. Especialistas e militantes da área saíram indignados desse primeiro turno, pela forma oportunista que alguns atacaram e outros disfarçaram essas bandeiras. Enquanto a América do Sul e o mundo avançam na legalização do casamento gay, nossa candidata apresentou logo o ex-marido para tirar qualquer dúvida acerca das acusações sobre sua sexualidade. E se ela fosse lésbica, não poderia ser presidenta do Brasil?
            A pasteurização da política merece artigos e debates intensos, mas devem ser feitos posteriormente. Agora, no ímpeto de ganharmos as eleições e impedir a vitória de Serra e sua campanha semi-fascista, precisamos conquistar votos. Pois não é que a forma mais simples de fazê-lo é justamente saindo da pasteurização e escancarando a maneira como vemos o mundo?
            Na escolha entre o fundamentalismo religioso e a rebeldia utópica identificada nos vinte milhões de votos de Marina Silva, não vejo outra opção senão aquela já feita pelo PT 30 anos atrás: a rebeldia utópica somos nós. Dilma Presidenta do Brasil!

           
* Louise Caroline, 27 anos, é vice-presidente do PT de Pernambuco e mestranda em Ciências Políticas pela UFPE.

Serviço:
 
Louise Caroline, também é Secretaria Especial da Mulher da Cidade de Caruaru, interior de Pernambuco. Foi vice-presidente da União Nacional dos Estudantes - UNE de 2005 a 2007 e, com base nessa experiência lançou o livro "Outras Palavras" em 2009, que reune os textos e artigos sobre o Movimento Estudantil, a Educação e Política em geral. Os 15 textos foram reunidos numa edição, publicada pela Editora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) no livro.

Boa parte dos artigos é voltada para a área educacional, defendendo o sistema de cotas, da reforma universitária e das eleições diretas para reitor. O prefácio do livro é do jornalista Ricardo Noblat e o texto da orelha é de autoria de Fernando Lyra. (Da Redação do pe360graus.com)

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